sexta-feira, 13 de maio de 2011

Travesseiro de Marcela

Já passava das oito da noite. Os olhos denunciavam o cansaço e ali mesmo no sofá diante da TV sonecas aconteciam e o palmeiras já perdia de cinco para o coritiba. Manoel dos Sonhos não resistiu as dores no pescoço e deixou de lado a preguiça de se movimentar para deitar-se confortavelmente em sua cama. Toda vez ao deitar, apoiava as canelas na extremidade dos pés da cama e deixava o corpo cair no colchão. Seu rosto mergulhava no fofíssimo travesseiro de marcela. Esse era seu ritual.

Sua avó foi quem fizera e lhe dera o relaxante travesseiro recheado com a mais bela safra de marcela dos campos do interior de Minas Gerais. Foi uma época de boa chuva e sol na medida para haver florzinhas marcelianas tão especias para a iguaría mineira dos sonhos. Os mais antigos dizem que a planta é medicinal, problemas respiratórios são logo resolvidos com algumas noites cheirando a marcela.

A derrota para o coxa branca foi a última que depois Manoel conseguiu ver e dormir depois. O baque foi tão grande que implorou a Morfeu um desmaio momentâneo. Na manhã seguinte foi simpático a todos os comentários, mas não via a hora do expediente acabar. Ao chegar em casa alimentou-se rapidamente como de costume e não ousou ligar a TV. Foi diretinho para o banho e por fim a tão esperada cama revitalizadora. Repetiu o mesmo processo e lá estava ele, novamente cheirando a marcela.

Vira pra lá, volta pra mesma posição, mexe no travesseiro, afofa aqui, soca lá, deita mais uma vez, e outra, bebe um copo d´água posto em cima do criado mudo, cobre-se, fecha os olhos e o descanso enfim vem.

Foram apenas alguns minutos na companhia do pai da morfina. Manoel abriu os olhos e sufocado brigava com o travesseiro na tentativa de desvencilhar-se do objeto que até o momento era responsável por sua momentânea asfixia. O travesseiro, aparentemente inofensivo lhe tirou todo o oxigênio, avermelhou -lhe os olhos e o expulsou de sua própria cama.

- O que é isso?

O susto pelo evento foi maior do que a falta de ar e a irritação no olhos. Simplesmente incompreensível e não racional. Seria o travesseiro irmão do boneco Chuck? O tormento era consequência de vudú? Esses eram seus questionamentos.

Naquela noite Manoel não conseguiu dormir.

No trabalho foi ainda simpático, sorriu diante à ironia esportiva. Já na sua casa, depois do macarrão instantâneo e o banho, encontrou-se deitado em sua cama. Foram os mais preciosos cinco minutos de soneca das últimas quarenta e oito horas, porque lá estava Manoel em pé, recuperando-se da falta de ar e a coceira nos olhos.

Depois da terceira noite intempestiva, Manoel baixou na polícia para registrar boletim de ocorrência contra seu travesseiro, com a alegação de que quase havia sido morto pelo objeto e há dias não conseguia dormir devido a opressão do fofíssimo. O riso do escrivão foi incontrolável.

A questão chegou até o delegado que de duas uma: ou encaminharia o travesseiro para perícia ou Manoel para um psiquiatra. Também contagiado pelo exótico acontecimento, aos risos o delegado fez a duas coisas.

Ausência no trabalho e consulta com o psiquiatra. No dia seguinte ao boletim de ocorrências Manoel conseguiu dormir profundamente por quarenta minutos, aos olhares do psiquiatra. O divã havia sido uma aconchegante nuvem. Se interessou em ter um igual na casa e perguntar o valor ao psiquiatra. O problema não era ele, seria então o travesseiro?

A perícia encontrou apenas a plantinha marcela. Nada mais justificaria os sintomas apresentados por ele, a não ser que fosse alérgico. Depois de exames, isso foi comprovado. A alergia se desenvolveu porque Manoel alimentava-se mal e a baixa imunidade ocasionou reações contra o perfume exalado pela marcela. Caso Solucionado? Não.

Manoel não dormia de forma alguma. O tormento não tinha fim. No trabalho não rendia com antes, sem contar as piadas tenebrosas a respeito da derrota de seu Palmeiras. Se passou exatamente uma semana e o segundo jogo contra o Coritiba estava prestes a começar.

O que estava ruim podia piorar ainda mais. Já que o Coritiba não perdia uma partida a vinte e quatro jogos. Como manoel não dormia mesmo, assistir o jogo esperando uma derrota era suportável.

O Palmeiras venceu e Manoel voltou a dormir como antes.

por Romeu Neto

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